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Blog do Chico Barney

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Famosos terceirizam conteúdo das redes sociais e se distanciam dos fãs

Chico Barney

11/09/2018 18h41

Anitta e Neymar são ícones de uma época mais inocente do Twitter, com mensagens espontâneas que fazem sucesso até hoje (Foto: Divulgação)

As redes sociais supostamente derrubaram uma barreira entre fãs e seus ídolos. Qualquer Gilmar das Candongas está a um clique de distância de artistas do primeiro escalão. E não é raro ver esse tipo de interação ocorrendo. Anônimos recebem respostas e curtidas de protagonistas de novela, apresentadores de renome, músicos ou jogadores de futebol. Mas será que são as próprias celebridades do outro lado da tela?

Seguindo a tendência do mercado, é cada vez mais raro ver uma manifestação de famosos chegando ao público sem qualquer filtro de assessores. Em alguns casos, é um trabalho estruturado: discussão de pautas, aprovação de tom e linguagem. Já em outros, o ghost writer tem maior liberdade para "criar".

O bem mais valioso de um artista é sua imagem. E o fato de ter construído uma não quer dizer que vá ter conhecimento suficiente para mantê-la. Buscando evitar ruídos de comunicação e eventuais crises com a opinião pública, assessorias especializadas ajudam a manter nossas estrelas favoritas longe de maiores polêmicas.

Até que ponto isso é honesto com o amigo internauta? Conversei com um profissional que interpreta uma destacada figura do showbiz brasileiro  no Twitter, no intuito de tentar compreender melhor a questão. Por intermédio do perfil oficial do artista, com direito a selinho azul de verificação e tudo mais, ele abastece os fãs de seu patrão com a criação de boa parte do conteúdo e interações.

Por questões de segurança, a fonte que chamaremos de "Tuiteiro X" pediu para omitirmos sua identidade e também a do contratante.

Blog do Chico Barney – No que o senhor acha que seu trabalho se difere de um perfil fake? Não acha que é um pouco parecido com enganar o público?

Tuiteiro X – Acho que a diferença do meu trabalho e um fake é que há um acordo entre o famoso e o ghost writer que está por trás dele. Em nenhum momento o meu trabalho é ganhar algo ou inventar histórias em nome de alguém, mas colocar para o público aquilo que ele não tem tempo de mostrar.

No meu trabalho procuro enganar o menos possível as pessoas com quem o artista poderia lidar, como outros famosos e fãs muito próximos. Estes eu evito interagir com muita intimidade, até para evitar constrangimentos futuros entre eles. Depois de alguns anos juntos, acho até que já aprendi a linguagem usada por ele e consigo facilmente conversar com os seguidores sem que haja uma desconfiança.

Era de Ouro dos famosos no Twitter (Foto: Reprodução)

A social media evoluiu muito como negócio nos últimos anos. Todas as grandes marcas possuem uma ostensiva presença online. Quando o modus operandi de uma fabricante de cervejas, por exemplo, passa a ser seguido por artistas, algo valioso não se perde pelo caminho?

Concordo que a partir do momento que algumas celebridades se adaptam ao modo que a internet vem andando, ele pode perder um pouco do que é para a grande maioria do mundo offline. É preciso achar um meio termo respeitando todas as características do artista, como por exemplo a faixa etária, orientação sexual, naturalidade. Eu acho estranhamente bizarro ver famosos mais velhos interagindo com memes que você percebe claramente que não partiriam deles. Tenho a sorte de lidar com um artista com a idade próxima da minha, e consigo passear por estes momentos da internet sem que nada seja perdido.

Gosto do exemplo de Neymar Júnior. Quando ainda era uma jovem promessa no Santos, tuitava com alegria e ousadia. Tanto que muitos posts viraram clássicos culturais. Desde que o perfil foi assumido por uma assessoria, o que vemos é o feijão com arroz da atividade de relações públicas. Como o senhor analisa esse cenário?

Nunca tinha parado para pensar no case do Neymar (riso). Realmente perdemos a chance de ter ótimos tweets antigos sendo feitos em 2018. O Neymar faz o feijão com arroz por uma linguagem escolhida pela assessoria, de só postar coisas banais. Você vê que ali não tem uma interatividade ou uma intenção de criar esse vínculo.

Acho que a tendência de perdermos os tweets "raiz" se dá também pelo fato de hoje as pessoas usarem o Twitter de maneira diferente. As pessoas não postam mais as tradicionais mensagens de 2009, como "partiu almoço", "hora do banho". Hoje virou uma rede de criação de conteúdo, não é mais uma timeline sobre o dia a dia.

Tweets antigos do Neymar viraram camisetas, canecas e até propaganda de fast food (Foto: Reprodução)

O senhor seguiria o perfil do artista para o qual trabalha se soubesse que não é ele quem atualiza os posts?

Eu seguiria o perfil do artista que eu trabalho sim (risos). Gosto do trabalho dele nas outras plataformas, acredito que ali seja uma fonte de conteúdo sobre diversos assuntos. Ele é uma pessoa antenada que produz bons conteúdos em seu programa e no YouTube, então mesmo que com uma assessoria trabalhando, a qualquer momento pode vir um vídeo ou uma foto engraçada (pelo menos me esforço para isso).

O senhor conhece outros profissionais que cuidam dos perfis de celebridades? Existe uma rede subterrânea de responsáveis pelo Twitter dos artistas que convivem juntos e inventam tramas que passem maior credibilidade?

Eu conheço pessoas que trabalham para outras celebridades mas não foi por uma rede ou um grupo existente. Conheço alguns por causa do meu passado no Twitter, por ter criado amizade antes de termos esse trabalho, e outros depois de estar ao lado do meu artista. Em eventos e participações em TV acabamos por ser apresentados como o "Fulano por trás do Ciclano". Conheci profissionais que acompanham outras figuras muito famosas para fazer essa gestão, além do escritório que cuida da carreira deles também.

Alguma vez já publicou algo na conta errada? Como procede em casos assim?

Já fiz post em conta errada sim, já compartilhei post do Instagram do artista na minha conta pessoal. Já fiz tweet no meu perfil que era conteúdo do artista. Normalmente o que mais acontece é o post dele vir parar na minha conta, o que também pode ser um problema porque eu tenho um tamanho relevante no Twitter. O que, se eu fosse um completo anônimo, só seria problema quando eu postasse algo sem querer na conta do artista. Consegue entender? Eu não tô lembrando de nenhum fato específico, mas eu já fiz alguns tweets meus na conta do artista, e apaguei logo em seguida. Mas temos o espaço do erro já que nós dois produzimos conteúdos de humor. Então se eu postar algo que não seja tão ruim para a imagem dele, posso até deixar o tweet lá que segue como uma piada normal do dia a dia (risos).

Ainda lembro quando um grupo de gaiatos, nos primórdios do Twitter, inventou um perfil do Victor Fasano. Foi a maior celeuma. Um site de fofocas precisou explicar para o ator, nos idos de 2008, o que era o Twitter. Ele ficou indignado, mas logo se rendeu ao sucesso do fake.

Fasano em 2008: "Fico pensando como o tempo é tão mal utilizado, desperdiçado" (Foto: Isac Luz/Globo)

É curioso pensar que aqueles pioneiros, cheios de sensibilidade artística, hoje poderiam ter construído um império interpretando celebridades em perfis oficiais.

Escreverei mais sobre os 10 anos do fenômeno "Vitor Fasano de araque" em breve.

Voltamos a qualquer momento com novas informações.

Sobre o autor

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002