Topo

Ex-editor da revista "Mad" no Brasil vende gibis para "não morrer de fome"

Chico Barney

04/07/2019 17h26

Reprodução

Ota Assunção é um dos nomes mais importantes do humor brasileiro. Durante muitos anos, foi o editor responsável pela versão brasileira da "Mad", clássica publicação que satirizava todos os aspectos da cultura popular –e cuja matriz anunciou hoje o encerramento das atividades.

As duas melhores fases da revista no Brasil tiveram Ota como principal articulador, primeiro na editora Vecchi e depois na Record. Mas o cartunista recentemente fez queixas a respeito do atual momento financeiro em suas redes sociais.

"Desde que esta maldita crise começou os frilas sumiram. A única solução pra não morrer de fome foi começar produzir meus gibis eu mesmo, dar uma de camelô e sair vendendo pela rua ou pelo correio diretamente para os fãs. Ou em eventos. Se você gosta de mim e quer me dar uma força me chame no messenger ou no zap e eu passo as coordenadas", escreveu.

Reprodução

Não é uma situação pela qual um grande ícone da cultura popular deveria passar. "Hoje sobrevivo de vender meus gibis autorais e felizmente os fãs me apoiam. Este mês foi bom, mas o mês passado eu não tinha o que comer. Contei com a generosidade de uma amiga que bancou um supermercado", comentou.

O momento deveria ser de celebração para os fãs da revista no Brasil, conforme anotou em outra publicação.

"Este mês a 'Mad' comemora mais uma efeméride. Porque além de fazer 45 anos do primeiro lançamento da Vecchi, a série da Record foi lançada exatamente dez anos depois, portanto são 35 anos da segunda série. A segunda série foi a melhor de todas e se caracterizou pela total liberdade de criação e decisões que eu podia tomar. E com a vantagem que eu podia publicar meus desenhos, o que era proibido na Vecchi. Quando fechei o negócio como Sérgio Machado, falei que queria publicar e ele até gostou. Assim, teve colaborações Ota em praticamente todas as edições."

Reprodução

"No início os leitores estranharam, porque meu estilo era tosco demais e diferente do resto da revista, mas quando começaram os Relatórios Ota os leitores adoraram e virei a principal estrela nacional da revista", continuou.

"Essa fase durou de 1984 a 2000 e a revista recuperou o patamar de vendas dos tempos áureos da Vecchi, cujas vendas tinham baixado porque os que ficaram no meu lugar não entendiam muito de editar revistas de humor, achavam que era só chamar os colaboradores e pedir colaborações. Ficou algo como com a saída do cozinheiro o molho ficar insosso ou um bando de músicos bons sem um maestro pra reger a orquestra direito."

O célebre cartunista também escreveu para os fãs a respeito do fim da revista Mad lá fora.

"Já estava sabendo desde ontem mas hoje virou a notícia mais bombástica da mídia. Após 67 anos, a Mad deixa de circular nos EUA. Serão publicados mais alguns números com reprises para atender exigências jurídicas (só para cumprir as assinaturas já pagas) .

A revista, que começou em 1952 sob a batuta do genial Harvey Kurtzman, estava capengando desde 2008 ou 2009, quando começou a crise americana (aqui era só uma marolinha). De um ano pra cá houve uma tentativa de zerar a numeração mas esta nova fase não passou do número 8 ou 9. Agora bateram o martelo para o cancelamento definitivo."

Reprodução

"Será?", questiona Ota. "Tudo acaba voltando mais cedo ou mais tarde. Mas voltar ao patamar de 1962 quando a circulação beirava 3 milhões de exemplares, nunca mais. No Brasil a recordista foi a edição 20 da Vecchi (Tubarão na capa), cuja tiragem foi de 210 mil. Depois estabilizou-se em 150 mil. Quando esteve na mão da Record também voltou a este patamar na época do Plano Cruzado. Aos poucos foi caindo e parou em 2000 quando vendia 8 mil."

"Na editora seguinte, a Mythos, estava nessa faixa mas eles não me informavam os números. Soube que na Panini chegou a vender apenas 3 mil. Em 2016 deixou de sair, voltando um ou dois anos depois numa edição especial pra aproveitar o filme da Liga da Justiça.
Será mesmo o fim? Vamos ver. De repente algum milionário compra a revista e começa tudo de novo", escreveu.

O amigo leitor pode apoiar o trabalho de Ota Assunção neste link.

Voltamos a qualquer momento com novas informações.

Sobre o autor

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002

Chico Barney